sábado, 19 de janeiro de 2013


Deus, por algum motivo estou aqui.
eu posso ser um astronauta...
eu posso ser um marceneiro...
talvez, Deus, eu não seja nada. seja eu, quem sabe, um andarilho.
um flautista.
Deus, de tudo que você sabe e pode, não me deixe ser malvado.
corrige os meus passos, e me ajude a dividir, pois é muito difícil .
ensina-me primeiro o verbo doar, depois o verbo querer... por último o verbo ter. mas só quando eu aprender direitinho os dois primeiros verbos.
não me deixa ser enganado pelos velhos muito chatos, e nem iludido pela tv... principalmente a globo e a record.
Deus conforta os bichinhos, todos eles, porque não sabem, como eu, orar.
Deus, ajuda para que eu não me conforme com a injustiça contra as criancinhas, os velhinhos, e os que não têm conforto.
perdoa o Saramago, porque ele era muito ranzinza.
é o que eu te peço, nessa oração feita muito antes do motivo pelo qual me faz estar aqui. Amém.


Ramon c/ oração para meu filho /
Janeiro-2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013



            quando ela chegou a tv estava ligada na nathional geographic. a tv fazia, sozinha, um barulho ensurdecedor.
-as flores no campo, com certeza, floresceriam sem a sua ajuda.  se pô-las na porra de um vaso, trate de rega-las. 
-um cão selvagem, no serrado onde vive, ver-lhe-ia como presa. mas se você o domesticou, caralho, dê-lhe água.
-as águas de um rio, correriam e teriam seu ciclo natural respeitado. mas se você as cerrou numa garrafa, cacete, beba!
            ele desligou a tv, abriu a porta e saiu.  nem avisou pra onde ia.

ramonc/ efemérides do fim: a tristeza se renova e deus faz sua justiça/
janeiro-2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


            o melhor do amor, é que se pode viver sem ele.  você não terá câncer se não for abraçado. não se termina uma guerra pela falta de um beijo. ah, como é bom saber que se , hoje, você não ouvir um “ eu te amo”, nenhuma criança morrerá a mais. dá certo conforto não dá? se nenhuma casal fizer as pazes, amanhã, ainda teremos bombas. se nenhuma mão a mais for dada, amanhã, se assim o for, seu fígado doerá na mesma medida que doeria de qualquer outra forma. o amor não serve pra porra nenhuma. aliás, é melhor viver sem amor. sem esperar uma ligação. sem esperar que amor seja sinônimo de sexo, e que amor seja feito durante uma noite e se estenda pela manhã antes e depois do café. o amor não presta. se não houver amor nada muda. nenhum trigo a mais na mesa. nenhuma vacina nova. nenhum avanço da teconologia.  a corrupção não diminuí se , de repente, você sente o perfume da moça que tanto ama um segundo depois do beijo. não prospera sua conta caso você em altar jure :sim! nada. o amor, definitivamente, piora a situação. aliás, o pior do amor é que não se quer viver sem ele.

ramon c / você não me ligou, certa noite, e eu fiquei pensando em homicídio/
janeiro-2013.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


                quando escrevo, embora tenha sempre muito trabalho,  não tenho condição nenhuma de dizer como o texto terminará. isso faz com que eu pense que em todo texto meu há algo de outro, de outros. há neles  alguma coisa de psicografia, alguma coisa soprada, alguma coisa desonesta de minha parte.


ramon c/ confissão/
janeiro 2013. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


                do lado esquerdo da grande parede de tinta sempre branca rachada pela pouca ação do tempo que pôde tocar aquele lugar escondido do resto do mundo, a cômoda de carvalho, antiquíssima, sempre esteve na casa de minha avó.  minha avó, tal e qual a cômoda, resistiu ao tempo de maneira peculiar, nunca esteve jovem aos meus olhos. minha avó sempre fora velha.
            o carvalho já tivera sido consumido pela ação de cupins, traças e outras pragas que foram, de maneira drástica, ou não, exorcizadas.  a resistência do carvalho, talvez, justifique a monárquica posição do objeto, que embora pudesse, nunca foi substituído, ou sequer mudou de posição.
             minha avó desde sempre teve uma modesta vida confortável de uma senhora dona de casa. houve naquela casa velha muitos móveis é verdade, uma vida farta. meu avô, há muito falecido, tempo o suficiente para que eu nunca o tivesse conhecido para além das lembranças à mesa, ou no velho retrato por sobre a cômoda, fora torneiro mecânico toda a sua vida, em uma única metalúrgica. Quando morreu, deixou muito à minha avó, suprimentos, dinheiro que fazia entrar e sair eletrodomésticos, uns inclusive que nunca foram utilizados e permaneciam intactos nas caixas como se fossem troféus ou brinquedos de colecionador, um grande retrato seu de lambe-lambe que ainda descansa sobre a cômoda e a tal cômoda de carvalho que, em lendas íntimas, diziam ter pertencido à família fidalga antes de , por roubou, saque, ou outra coisa que o valha, ter caído por engano na casa de mãe do meu avó.
            o imponente objeto de madeira fica disposto a todos que o veem, e acima dele há um grande oratório destinado à nossa senhora, entretanto, houve épocas de haver são sebastião, santa teresinha. confidencias familiares oram que o primeiro que esteve naquele oratório fora santo antônio, mas isso já foi há muito tempo. na grande caixa de jacarandá há cinco gavetas grandes, que , quase como metalinguagem de si, nunca alternaram os objetos que são portadoras.  a primeira destina-se a guardar as contas que ainda serão pagas na esquerda, e que já foram pagas na direita. a segunda, porta retratos antigos de minha pai e de meus tios, há também pequenos pertences como velas de primeira comunhão, e madeixas de primeiros cortes de cabelos de todos nós. a segunda gaveta nunca é aberta, sabemos dela e do que ela contém... mas nunca a perturbamos. a terceira gaveta guarda os panos de prato, ficam ali livres para serem acessados todas as vezes que minha avó, ou a moça que cuida dela precisa. a quarta gaveta carrega os livros velhos de receita para culinária, e também os exames médicos de anos e anos, que minha avó guarda por precaução.
            a ultima gaveta é a mais difícil de ser aberta não apenas pelo desconforto de estar rente ao chão, mas por estar sempre emperrada  pela falta de uso e pela ferrugem corrosiva de suas articulações. essa era a gaveta do meu avô e , por isso, ainda guarda  pertences dele, muito necessários, segundo minha avó e meu pai, para manter a presença do velho pela casa. há , na gaveta, suas duas gravatas preferidas, seu caderno de cânticos da igreja, sua caneta tinteiro que nunca fora utilizada para mais que contracheques, um time de botão do juventus do seu tempo de menino e uma foto dele abraçado à minha avó enquanto moços, intacta. esse é o único objeto que está lá que nunca pertenceu a meu avô. minha avó, depois de uns anos que ele morreu, pôs lá fazendo graça. rimos todos com a brincadeira daquela senhora redonda e conservada em sua velhice. a fotografia nunca mais saiu dali.
            hoje, enquanto almoçávamos, discutimos o destino do velho móvel de carvalho. todos tinham interesse em ter o objeto, portanto, ficou para herança. ficou para ser o que sobrar do corpo morto de minha avó. quando levantamos, vi meu pai soprar no ouvido de minha mãe “ esse vai pra nossa sala... só não levo a foto do meu pai... ponho a minha”.  minha mãe não riu. minha mãe ri pouco, talvez, por ser  uma mulher velha.

Ramon c/ a cômoda/
Janeiro 2013.

domingo, 6 de janeiro de 2013

             o café quente foi servido nas duas xícaras.  o líquido saído do pequeno buraco da chaleira descia espesso, mais que o comum, contudo, seu barulho podia ser apenas imaginado. ouvido... não.
             tinha um tempo a amizade dos dois. conheceram-se nuns lugares destes quaisquer, mas foi numa conversa sobre mitologia grega que o nó germinal das relações fora cerrado: nascida, relação, como afrodite ou dionísio, estavam ali. a conversa naquela tarde, é verdade, fora de política à religião, sempre ultrapassando a mais alta transcendência mas nunca o limite da moralidade e da cintura.
             de onde estavam via-se uma pequena igreja em tons terrosos, uma roseira com rosas em botão  e outras, mais ousadas, já despetaladas pela suavidade do vento que com pinceladas ora fortes, ora mansas, abria as rosas mais ousadas e as deixava molhadas pela umidade da primavera chuvosa que fazia. naquele momento ainda, via-se um cão e um casal de velhos que podia , quem quisesse, acreditar que eram casados há anos. 
             enquanto ela dissecava as últimas notícias sobre o caderno de política, pegou-o em nirvana olhando  para  suas coxas. sentiu-se desejada, invadida, desrespeitada... mas não escondeu as pernas e nem mudou de posição, tampouco mudou o tom de sua voz, ou o assunto para que ele , por susto, medo, vergonha deixasse de olhá-la. sentia-se envergonhada por querer ser desrespeitada, mas gostou dos olhos que fitavam  suas pernas nuas e que desejavam , pensou, o corpo todo.
            ele ouvia pouco sobre o tal rafael correa, e agora, ele parecia ainda mais desconhecido diante às coxas bronzeadas, rígidas e redondas. penetrava com o olhar por debaixo da saia como se não houvesse limite entre o olho e o sexo, como se o tecido fosse inútil véu que apenas ostentava a cura para um desejo que ele, não se sabe se pelo presidente equatoriano, ou pelo vinho de dionísio, havia despertado de maneira grande e forte... delicadamente sufocante. 
             ela prolongava o assunto como se o desejo  do olhar dele a tocasse, fosse as mãos do moço penetrando por debaixo de sua saia, desabotoando o feixe do sutiã ... então ela, sem ar, buscava palavra a palavra, de oração a oração, um novo assunto. não se importava que ele não retribuísse à conversa. queria que ele continuasse com o olhar firme em suas pernas, profundo e profundo. no início ela conseguia atar as orações com conjunções, depois, quase em soluços ouvia-se apenas pequenos sintagmas de assuntos, sussurros e contextos inexpressivos diante a uma respiração, de ambos, arfantes e desesperada. 
             o café jazia inerte na xícara, o vento deu trégua às flores, inclusive às mais ousadas. não se via mais o velhos. "mais café?" em tom forte a garçonete fez seu trabalho. é comum que se faça consumir ou se faça ir; garçonetes não estão preparadas para conversas demasiadamente longas, quer sobre política, quer sobre quaisquer assuntos. ela não quis. levantou-se, suada e estranha. amiga. mais amiga, talvez. ele ficou e pediu uma terceira xícara.


ramon c/       um café quente e três xícaras./
jan-2013.
       
       

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

saudade é a prova de amor mais dolorosa que existe?
eu não tenho certeza. mas espero que sim.
onde você está, tomara que não me ouça, nem pense
que sua ausência me incomoda, me dá fim.
será que você anda comendo, ou sentindo falta, 
da comida italiana, francesa, romana, que você já comeu por aí?
eu queria que houvesse, onde está, se é que está, se é que há, 
teatros, e prendedores de gravata, lindos e dourados, cheiro de perfume francês, 
lenços lindos e Debussy. 
poemas, prosas, livros velhos, e seus escritos, seu papeis, suas coisas todas, organizadas... e sua juventude de volta, linda e desinibida. sem medo, e com um vaticano sem papa.
tomara que você não me ouça nunca, não sinta a minha falta, e que habite num lugar com seda e detalhes em marfim que nunca saíram, misteriosamente, de um elefante... 
Shekespeare a teu lado, Felline do outro... La Doce Vita! 
tomara que você não sinta saudade de mim. mas que agora, Deus bem que podia te dar um calorzinho bom... parecido com um abraço.


ramonc/ parecido com um abraço de domingo/
janeiro/2013