sexta-feira, 4 de outubro de 2013

            apareceu, certa vez, na praça que tem uma igrejinha, o corpo de uma garota. tinha sinais de agressão que nem de perto lembravam pancada simples. era coisa de profissional. coisa que marca a carne fundo, fundo, e você não esquece nem com promessa.
            eu e todos os meus amigos fomos ver a novidade. afinal de contas, os quarteirões no entorno da praça já estava murmurando a má notícia. um corpo feminino, daquele jeito, representava de certa maneira uma ferida aberta. um risco a todos. as pessoas, de modo geral, tinham cheiro de medo. dizem que animais que têm bom olfato, como cães e cobras, podem sentir o cheiro do medo. ali, esses animais teriam um dia cheio de sensações.
            as senhoras de respeito, ilibadas em moralidade, resmungavam de sobrolhos à novidade que se apresentava com olhares de rapina sobre a nossa curiosidade. os velhos eram mais entusiasmados, mesmo assim, ralhavam conosco em razão do que era certo, talhando com faca e foice o nosso desejo pelo corpo.
            havia aqueles, além disso, que diziam da violência com violência “ também, com um shortinho tão curtinho!”. tinha também aqueles que faziam sinais da cruz quando ouviam e, se por descuido a viam, viravam a cara para o lado oposto ao corpo da moça, feminilíssimo e seminu.
            de certa maneira, eu tinha medo também. quando, depois de ter passado a grande araucária, velhíssima,  que ficava na praça. vi o corpo e o meu corpo, então, estremeceu de jeito novo. não tive medo da moça, propriamente. era medo de mim. medo do desejo que sentia. um suor gelado molhava minhas mãos em sudorese. o vento, cheio de poeirinha, pôde justificar, depois, porquê de primeiro fechei os olhos. eu, nesse instante, só conseguia pensar “obra do cão. isso quem fez foi o diabo!”. queria o meu corpo de volta, sob controle, em seu lugar de origem. sem medo, e sem perigo.
            enquanto a moça, tranquila, sem saber da novidade, comia pipoca na praça da igrejinha.

ramoncoutubro2013.

um dia, na praça da igrejinha, havia um corpo de mulher.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

depois.
depois de um copo de café,
de um boa gargalhada.
da mão estendida por uma esmola.
do dia cansativo
da piada boa mal contada.
ou da piada horrível extraordinariamente bem contada.
depois da música preferia
e da música chiclete.
depois do abraço fraterno
da desigualdade social
do clima neurótico criado à humanidade.
dos fetiches e dos fetichismos.
depois do poema do romancista.
e da poesia do mendigo  sobre o mendigo.
depois da folha que cai.
depois da primeira molécula.
e da última célula descamada sobre a pele.
depois dos latidos dos cães e do roçar dos gatos pelas pernas.
depois dos vincos das calças bem passadas.
e dos  pães sobre a mesa
e das mesas vazias.
depois das gentilezas.
depois dos infortúnios.
depois do depois e do antes e após e porém
a Bianca sorri pra mim. e eu a amo.

depois do riso da Bianca o mundo tem sido outro.

ramoncagosto2013.

sábado, 3 de agosto de 2013

bianca, desista de não pecar...
eu gozo, juro que gozo...
só em te beijar.

ramonc / recado na geladeira de casa para os grilos da Bianca.
agosto - 2013.

sábado, 27 de julho de 2013

à noite, já cansada de ser quem era, despiu-se .
foi ao banheiro e retirou a maquiagem à guerra, à guerra que há lá fora. desnecessária maquiagem. tirou a blusa e ficou com o sutiã  que não servia para o seu serviço, aliás, muito mais escondia a juventude da pouca idade. olhou-se sem pensar e tirou os sapatos, a saia. já nua, despiu-se dos mil trabalhos bem planejados por outros, dos mil e um trampos da facu. tirou de si a piscadela inconveniente e as trinta buzinadas de homens mal educados que ficaram felizes por lhe ver.
tirou um a um os conselhos maternos, paternos, fraternos, divinos e da Laura Müller.  despiu-se do espelho, do falo, da Vênus que misteriosamente e inescrupulosamente beija uma mulher bonita.
despiu-se tanto e de tal modo que, de certa forma, e em certo ponto, chegou a ser exatamente , e sem sombra de dúvida, ela mesma.
aí, então, ela se apaixonou.

antes das histórias de amor.
ramonc/julho-2013.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

senti  amor no ato
de vê-la, um dia.
Amor de grande modo...
que em meu peito ardia.

e desse amor que fugi por sê intenso
e, por isso, me escondia.
e me virei no mais que pude, ao avesso...
e , caso a visse, escondia.

não podia, eu, contudo
fingir não amá-la pelos dias...
e então num sussurro ...
eu grito um grito que me fia...

- por quem meu peito ardia...
e mais arde a cada dia...
não há quem eu ame mais.
como eu amo à Bia.

ao meu amor. minha amiga. minha amante.

ramonc. sem data.

sábado, 22 de junho de 2013

a última gota de moralidade que havia em mim, está transando com aquele cara que fuma um cigarro na esquina. 
não me sinto traído, sinto-me ultrapassado, porque, afinal, aquele cara é mais sexy do que eu. não culpo a moralidade . devia era ter transado com os dois. 

ramonc/ a última gota de moralidade que havia em mim está transando com o cara na esquina.
junho-2013.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

            seu pai acreditava que tinha uma santa em casa, Ana é uma Santa, dizia. o que ele não sabia é que Ana já tinha dado para o bairro todo. Ana gostava de todo tipo de pessoa, não importava quem, era, dos jovens, a mais democrática. ricos, pobres, feios e bonitos, mulheres de toda ordem. todos já tinha experimentado de ana o corpo.

            um dia ana casou com o sr josé fonseca cardoso braga alckmim marinho de melo batista. tornou-se uma aristocrática, salvou-se. toma a óstia e tem dois filhos. brancos, é claro.


ramonc/ a tragédia vermelha.


junho-2013.