domingo, 3 de novembro de 2013

eu já estou tão marcado que não cabe um único rabisco de emoção. se , sem querer, eu ler um único poema, transbordo. se meus ouvidos teimosos ouvirem com atenção um verso de uma música boa, não caibo. se, meu olhos, de soslaio, pegam um traço bom de qualquer ser também já transbordado, inundo.

            eu não cabia em mim desse tamanho. tive de alargar à força, à fórceps, a minha figura no espelho. e hoje, o eu de dentro luta desacomodado nessa figura que , quando vejo, aos poucos vai se configurando em mim. se eu sorrir, que seja, rasgo o couro dessa crisálida e ninguém me reconhece, viro do avesso.se isso acontece,  tem pra mim, sangro, até viver. 

sangro até viver.
ramoncnovembrode2013.

domingo, 27 de outubro de 2013

         ela nunca mais foi feliz como era antigamente.

         a primavera indecisa que há lá fora colore a cidade de cor e cinza. em são paulo não se sabe mais que dia foi aquela tarde, nem se ela existiu como se lembra dela ou é impulso da emoção que põe centímetro a centímetro de gesto, palavra a palavra com a força da intenção que só existe agora.podia cair o mundo, podia existir inferno. ela quis suco de laranja sem açúcar e sem gelo. não teve medo de arriscar-se em relação ao gosto, à temperatura. ao assunto. e decepção , quem sabe, seria numa próxima riso.

         a felicidade é coisa inventada pelas nordestinas, sei que existe uma frase assim nos textos de Clarice e que isso lá significa tristeza. o hábito com a felicidade não funcionava com ela... nunca funcionou... e , nem que o mundo caísse, ela não poria açúcar naquele suco. nem que todas as guerras do mundo explodissem. nem que na hora do beijo ele virasse o rosto. queria o suco sem açúcar.
a primavera ora é cinza... ela, naquele dia, inventou a felicidade numa conversa. linda e sem açúcar.

linda e sem açúcar.

ramoncoutubro2013.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

            apareceu, certa vez, na praça que tem uma igrejinha, o corpo de uma garota. tinha sinais de agressão que nem de perto lembravam pancada simples. era coisa de profissional. coisa que marca a carne fundo, fundo, e você não esquece nem com promessa.
            eu e todos os meus amigos fomos ver a novidade. afinal de contas, os quarteirões no entorno da praça já estava murmurando a má notícia. um corpo feminino, daquele jeito, representava de certa maneira uma ferida aberta. um risco a todos. as pessoas, de modo geral, tinham cheiro de medo. dizem que animais que têm bom olfato, como cães e cobras, podem sentir o cheiro do medo. ali, esses animais teriam um dia cheio de sensações.
            as senhoras de respeito, ilibadas em moralidade, resmungavam de sobrolhos à novidade que se apresentava com olhares de rapina sobre a nossa curiosidade. os velhos eram mais entusiasmados, mesmo assim, ralhavam conosco em razão do que era certo, talhando com faca e foice o nosso desejo pelo corpo.
            havia aqueles, além disso, que diziam da violência com violência “ também, com um shortinho tão curtinho!”. tinha também aqueles que faziam sinais da cruz quando ouviam e, se por descuido a viam, viravam a cara para o lado oposto ao corpo da moça, feminilíssimo e seminu.
            de certa maneira, eu tinha medo também. quando, depois de ter passado a grande araucária, velhíssima,  que ficava na praça. vi o corpo e o meu corpo, então, estremeceu de jeito novo. não tive medo da moça, propriamente. era medo de mim. medo do desejo que sentia. um suor gelado molhava minhas mãos em sudorese. o vento, cheio de poeirinha, pôde justificar, depois, porquê de primeiro fechei os olhos. eu, nesse instante, só conseguia pensar “obra do cão. isso quem fez foi o diabo!”. queria o meu corpo de volta, sob controle, em seu lugar de origem. sem medo, e sem perigo.
            enquanto a moça, tranquila, sem saber da novidade, comia pipoca na praça da igrejinha.

ramoncoutubro2013.

um dia, na praça da igrejinha, havia um corpo de mulher.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

depois.
depois de um copo de café,
de um boa gargalhada.
da mão estendida por uma esmola.
do dia cansativo
da piada boa mal contada.
ou da piada horrível extraordinariamente bem contada.
depois da música preferia
e da música chiclete.
depois do abraço fraterno
da desigualdade social
do clima neurótico criado à humanidade.
dos fetiches e dos fetichismos.
depois do poema do romancista.
e da poesia do mendigo  sobre o mendigo.
depois da folha que cai.
depois da primeira molécula.
e da última célula descamada sobre a pele.
depois dos latidos dos cães e do roçar dos gatos pelas pernas.
depois dos vincos das calças bem passadas.
e dos  pães sobre a mesa
e das mesas vazias.
depois das gentilezas.
depois dos infortúnios.
depois do depois e do antes e após e porém
a Bianca sorri pra mim. e eu a amo.

depois do riso da Bianca o mundo tem sido outro.

ramoncagosto2013.

sábado, 3 de agosto de 2013

bianca, desista de não pecar...
eu gozo, juro que gozo...
só em te beijar.

ramonc / recado na geladeira de casa para os grilos da Bianca.
agosto - 2013.

sábado, 27 de julho de 2013

à noite, já cansada de ser quem era, despiu-se .
foi ao banheiro e retirou a maquiagem à guerra, à guerra que há lá fora. desnecessária maquiagem. tirou a blusa e ficou com o sutiã  que não servia para o seu serviço, aliás, muito mais escondia a juventude da pouca idade. olhou-se sem pensar e tirou os sapatos, a saia. já nua, despiu-se dos mil trabalhos bem planejados por outros, dos mil e um trampos da facu. tirou de si a piscadela inconveniente e as trinta buzinadas de homens mal educados que ficaram felizes por lhe ver.
tirou um a um os conselhos maternos, paternos, fraternos, divinos e da Laura Müller.  despiu-se do espelho, do falo, da Vênus que misteriosamente e inescrupulosamente beija uma mulher bonita.
despiu-se tanto e de tal modo que, de certa forma, e em certo ponto, chegou a ser exatamente , e sem sombra de dúvida, ela mesma.
aí, então, ela se apaixonou.

antes das histórias de amor.
ramonc/julho-2013.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

senti  amor no ato
de vê-la, um dia.
Amor de grande modo...
que em meu peito ardia.

e desse amor que fugi por sê intenso
e, por isso, me escondia.
e me virei no mais que pude, ao avesso...
e , caso a visse, escondia.

não podia, eu, contudo
fingir não amá-la pelos dias...
e então num sussurro ...
eu grito um grito que me fia...

- por quem meu peito ardia...
e mais arde a cada dia...
não há quem eu ame mais.
como eu amo à Bia.

ao meu amor. minha amiga. minha amante.

ramonc. sem data.